Depois de superar as ruas, reconstruir minha vida e ter projetos e ações sociais registrados pela imprensa de Jundiaí, precisei interromper tudo para enfrentar outra batalha: a dependência do álcool. Foram cerca de dois anos e meio afastado e seis internações. Quatro meses depois de retornar a Jundiaí, decidi contar o que aconteceu durante esse período.
“A capacidade de recomeçar tudo quantas vezes forem necessárias faz dos fracos, fortes.”
— Augusto Cury, A Pior Prisão do Mundo
Eu já precisei recomeçar mais de uma vez.
Talvez algumas pessoas que me conheceram em Jundiaí se lembrem de mim pelas matérias publicadas em jornais, sites e páginas de notícias da cidade. Outras me conheceram trabalhando com recuperação e polimento de faróis, participando de ações sociais ou tentando ajudar pessoas que enfrentavam dificuldades.
Mas antes de tudo isso existe uma história que nunca escondi: eu também conheci de perto a vida nas ruas.
Depois de anos vivendo em situação de rua, encontrei em Jundiaí a oportunidade de reconstruir minha vida. Comecei a trabalhar, tornei-me empreendedor e passei a transformar parte daquilo que conquistava em ações para outras pessoas.
Entre 2019 e os anos seguintes, diferentes momentos dessa trajetória foram registrados pela imprensa.
Em setembro de 2019, a Tribuna de Jundiaí publicou uma ação em que limpei a cascata da Avenida Nove de Julho. Pouco depois, o mesmo veículo contou minha história de superação e mostrou o trabalho que eu realizava.
O Jornal de Jundiaí também contou minha história. O Jornal da Região publicou minha passagem das ruas para o empreendedorismo. A TVTEC Jundiaí registrou minha trajetória. Outras páginas e veículos fizeram o mesmo.
Naquele momento, parecia que eu tinha finalmente deixado para trás os capítulos mais difíceis da minha vida.
Mas a vida me ensinaria que algumas batalhas precisam ser vencidas mais de uma vez.
O trabalho começou a ganhar outro significado
Meu serviço de recuperação e polimento de faróis foi muito mais do que uma maneira de ganhar dinheiro.
Em determinado momento, comecei a trocar parte do meu trabalho por doações de leite destinadas a entidades e famílias que precisavam.
A iniciativa ganhou repercussão.
Em outubro de 2019, páginas como Razões Para Acreditar, Tribuna de Jundiaí e outras registraram aquela mobilização.
Com a ajuda de muitas pessoas, vieram outras ações.
Houve arrecadação e doação de leite para famílias carentes. Ajudei pessoas que viviam nas ruas a conseguir passagens para retornar às suas cidades de origem. Participei de mobilizações em favor de famílias que enfrentavam dificuldades.
Também procurei chamar atenção para instituições que precisavam de apoio.
Durante a pandemia, distribuí máscaras no Centro de Jundiaí. Em outro momento, homenageei garis e trabalhadores da limpeza urbana.
Algumas dessas histórias tiveram milhares de reações e centenas de compartilhamentos nas redes sociais.
Mas o mais importante para mim nunca foram os números.
Era perceber que alguém que um dia precisou de ajuda havia conseguido chegar a um momento da vida em que também podia ajudar.
Daquele que precisava de ajuda para aquele que ajudava
Talvez seja justamente por isso que escrever esta matéria seja tão difícil.
Durante algum tempo, minha história pública foi marcada pela palavra superação.
Eu era apresentado como o ex-morador de rua que havia reconstruído a vida, se tornado empreendedor e começado a desenvolver ações solidárias.
E aquilo era verdade.
Eu realmente havia vencido uma etapa muito difícil.
Só que hoje compreendo uma coisa que naquela época talvez ainda não compreendesse completamente:
superar uma batalha não significa que nunca mais teremos de lutar.
Eu havia saído das ruas.
Tinha trabalho.
Tinha projetos.
Tinha reconhecimento.
Estava ajudando outras pessoas.
Por fora, muita coisa parecia estar no lugar.
Por dentro, nem tudo estava.
Quando o álcool começou a tomar espaço
Problemas de ansiedade, estresse e uma rotina excessiva de trabalho contribuíram para agravar meu consumo de álcool.
Aos poucos, aquilo que poderia parecer apenas um problema começou a interferir seriamente na minha vida.
Durante muito tempo, eu havia aprendido a enfrentar dificuldades trabalhando.
Se havia um problema, trabalhava mais.
Se alguma coisa me preocupava, ocupava meu tempo.
Se alguém precisava de ajuda, tentava fazer alguma coisa.
Só que existem problemas que não desaparecem simplesmente porque trabalhamos mais.
Chegou um momento em que precisei reconhecer que eu não estava bem.
E isso significava tomar uma decisão dolorosa: parar.
Minha última matéria antes do afastamento
Uma das últimas aparições do meu trabalho na imprensa antes desse afastamento aconteceu em abril de 2023.
O Jornal da Região publicou uma matéria sobre uma iniciativa em que eu recuperava voluntariamente abrigos de pontos de ônibus.
O título dizia:
“Ex-morador de rua restaura abrigos de pontos de ônibus.”
Olhando hoje para aquela publicação, ela representa para mim o encerramento de um capítulo.
Pouco tempo depois, minha vida mudaria completamente.
Os projetos diminuíram.
As ações pararam.
Meu trabalho foi interrompido.
E eu praticamente desapareci dos espaços onde costumava estar.
Talvez algumas pessoas tenham se perguntado:
Por onde anda o Jaime do Farol?
Durante muito tempo, eu não respondi.
Hoje posso responder.
Eu estava tentando salvar a minha própria vida.
Depois de ajudar tanta gente, chegou a minha vez de pedir ajuda
Existe uma imagem dessa história que talvez seja uma das mais difíceis para mim.
Em 20 de março de 2025, apareci novamente em uma publicação da página do Jornal da Região no Facebook.
Mas aquela não era uma matéria sobre uma ação social.
Eu não estava distribuindo leite.
Não estava ajudando uma família.
Não estava recuperando um espaço público.
Não estava restaurando um ponto de ônibus.
Naquele momento, era eu quem precisava de ajuda.
Eu estava no gabinete de um vereador de Jundiaí buscando auxílio para conseguir internação e tratamento para a dependência do álcool.
Para alguém que durante anos tentou ajudar outras pessoas, admitir publicamente que precisava ser ajudado não foi simples.
Mas havia chegado a esse ponto.
Posteriormente, consegui encaminhar meu tratamento com o auxílio do Hub de apoio relacionado ao crack, álcool e outras drogas do Governo do Estado de São Paulo.
Começava ali uma das fases mais difíceis da minha trajetória.
Seis internações
Ao todo, passei por seis internações.
Quando escrevo esse número, não quero que ele seja interpretado como seis derrotas.
Hoje vejo de outra maneira.
Foram seis momentos em que, apesar das dificuldades, continuei buscando uma saída.
Houve recaídas.
Houve momentos difíceis.
Houve dias em que precisei começar novamente.
E é justamente por isso que a frase de Augusto Cury faz tanto sentido para mim:
“A capacidade de recomeçar tudo quantas vezes forem necessárias faz dos fracos, fortes.”
Talvez eu tenha passado boa parte da vida acreditando que ser forte significava nunca cair.
Hoje penso diferente.
Às vezes, ser forte significa admitir que caiu.
Aceitar ajuda.
Voltar para o tratamento.
E começar tudo novamente.
Quantas vezes forem necessárias.
Para mim, vencer o vício foi mais difícil do que vencer as ruas
Já vivi nas ruas.
Conheci a insegurança de não ter um lugar que pudesse chamar de casa. Conheci dificuldades que ficam difíceis de explicar para quem nunca passou por aquela realidade.
Sair daquela situação foi uma das maiores conquistas da minha vida.
Mas depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos, posso fazer uma afirmação que talvez surpreenda algumas pessoas:
para mim, foi mais difícil enfrentar a dependência do álcool do que sair das ruas.
Não digo isso para comparar minha história com a de outras pessoas.
Cada pessoa enfrenta seus próprios limites, suas próprias dores e suas próprias batalhas.
Falo exclusivamente daquilo que vivi.
As ruas eram uma realidade dura que eu conseguia enxergar ao meu redor.
A dependência estava dentro de mim.
E não bastava simplesmente mudar de endereço, conseguir trabalho ou reconstruir minha vida material.
Eu precisava mudar por dentro.
Por que fui para São Paulo
Em determinado momento, percebi que precisava me afastar da rotina que estava vivendo em Jundiaí.
Ansiedade, estresse e excesso de trabalho haviam contribuído para piorar minha relação com o álcool.
Por isso, pausei minhas atividades e fui para São Paulo.
Foram aproximadamente dois anos e meio afastado.
Nesse período, minha prioridade deixou de ser trabalho, projetos, redes sociais, matérias ou reconhecimento.
Minha prioridade passou a ser o tratamento.
Precisei aprender algo que talvez devesse ter compreendido antes:
não podemos cuidar de todo mundo enquanto estamos deixando de cuidar de nós mesmos.
Quatro meses de volta
Faz aproximadamente quatro meses que retomei minha vida em Jundiaí.
Hoje não bebo mais.
Voltei ao trabalho.
Estou retomando minhas páginas, meus projetos, minhas ideias e, aos poucos, minha participação em causas sociais e voluntárias.
Mas não quero simplesmente voltar a ser exatamente a pessoa que eu era antes.
Porque se eu repetir exatamente a mesma vida, inclusive os mesmos excessos, não terei aprendido tudo aquilo que esses dois anos e meio me ensinaram.
Quero continuar trabalhando.
Quero continuar ajudando.
Quero continuar participando da cidade que me acolheu e pela qual tenho tanto carinho.
Mas quero fazer isso entendendo que eu também tenho limites.
Por que contar tudo isso agora?
Eu poderia simplesmente voltar.
Poderia retomar minhas páginas, publicar meus projetos e fingir que esses dois anos e meio nunca existiram.
Talvez fosse mais confortável.
Mas não seria verdadeiro.
Durante anos, jornais e páginas de notícias registraram minhas conquistas.
Mostraram quando saí das ruas.
Mostraram meu trabalho.
Mostraram as doações.
Mostraram as ações sociais.
Mostraram as pessoas que consegui ajudar.
Então por que esconder justamente a parte em que fui eu quem precisou ser ajudado?
Esses recortes de jornais contam uma parte bonita da minha história e tenho orgulho deles.
Mas minha história não é feita apenas das páginas bonitas.
Também existem capítulos difíceis.
Existem erros.
Existem quedas.
Existem recaídas.
Existem internações.
E existem recomeços.
Uma trajetória registrada pela imprensa
Quando olho hoje para as antigas matérias, vejo muito mais do que fotografias.
Vejo etapas da minha vida.
Vejo aquele homem que saiu das ruas e encontrou uma oportunidade.
Vejo o trabalhador recuperando faróis.
Vejo as caixas de leite arrecadadas.
Vejo famílias recebendo ajuda.
Vejo pessoas conseguindo retornar para suas cidades.
Vejo ações durante a pandemia.
Vejo trabalhadores sendo homenageados.
Vejo espaços públicos sendo cuidados.
Vejo os pontos de ônibus sendo recuperados.
Mas também consigo enxergar aquilo que nenhuma fotografia mostrava.
Por trás daquele homem que parecia incansável, havia alguém que também estava cansando.
Alguém que ainda teria outra batalha pela frente.
A história continua
Não escrevo esta matéria para pedir que alguém sinta pena de mim.
Também não quero transformar minhas dificuldades em medalhas.
Estou contando porque algumas pessoas acompanharam minha trajetória e talvez mereçam saber por que fiquei tanto tempo afastado.
E também porque talvez exista alguém lendo estas palavras que esteja vivendo sua própria batalha silenciosa.
Durante muito tempo, achei que minha maior história de superação seria ter saído das ruas.
Hoje sei que a vida pode exigir de nós vários recomeços.
Eu já caí.
Já levantei.
Caí novamente.
E precisei levantar outra vez.
Hoje estou de volta a Jundiaí.
Retomando minha vida.
Retomando meu trabalho.
Retomando meus projetos.
Mas principalmente aprendendo a cuidar da pessoa que existe antes de todos eles.
Ainda tenho muito caminho pela frente.
Não sei quais capítulos ainda serão escritos.
Mas sei que não quero apagar nenhum dos anteriores.
As ruas fazem parte da minha história.
As ações sociais fazem parte da minha história.
O alcoolismo e o tratamento também fazem parte da minha história.
E o recomeço que estou vivendo agora também fará.
Porque, depois de tudo o que vivi, passei a compreender de outra maneira aquelas palavras de Augusto Cury:
“A capacidade de recomeçar tudo quantas vezes forem necessárias faz dos fracos, fortes.”
Eu precisei recomeçar.
Mais de uma vez.
E talvez a minha maior vitória não seja poder dizer que nunca mais caí.
Talvez seja poder olhar para tudo aquilo que aconteceu e dizer:
eu não desisti de levantar.
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