Estamos vivendo um tempo em que parece cada vez mais difícil discordar sem brigar.
Basta entrar nas redes sociais, acompanhar uma discussão política ou conversar sobre eleições para perceber como pessoas que muitas vezes convivem na mesma cidade, trabalham juntas, são vizinhas, amigas ou até pertencem à mesma família acabam se tratando como inimigas simplesmente porque defendem candidatos diferentes.
Cada um tem suas convicções. Cada um acredita em determinadas ideias, projetos e pessoas. E não há problema nisso. A democracia existe justamente porque pensamos diferente.
O problema começa quando deixamos de defender nossas ideias e passamos a atacar quem pensa diferente de nós.
Nesse momento, lembro-me de um dos ensinamentos mais conhecidos de Jesus.
No Sermão do Monte, ao falar sobre a maneira como devemos reagir às ofensas, Jesus ensina que, se alguém nos ferir em uma face, devemos oferecer também a outra.
É uma passagem profunda.
Dar a outra face não significa concordar com tudo. Não significa permanecer calado diante da injustiça. Também não significa abrir mão de nossas convicções.
Significa não permitir que a agressão do outro determine aquilo que nós nos tornaremos.
Se alguém grita, eu não preciso gritar.
Se alguém ofende, eu não preciso ofender.
Se alguém espalha ódio, eu não preciso responder com mais ódio.
Talvez esteja faltando um pouco disso na política.
O político que você defende não precisa ser o político que eu defendo
Podemos caminhar por lados diferentes durante uma eleição e, ainda assim, continuar respeitando uns aos outros.
Eu posso acreditar em um candidato e você acreditar em outro.
Posso elogiar aquilo que considero correto e criticar aquilo que considero errado. Você também.
Isso faz parte da democracia.
O que não deveria fazer parte dela é perder amizades, romper famílias, humilhar pessoas ou desejar o mal de alguém simplesmente por causa de uma escolha política.
Nenhum político deveria valer uma amizade.
Nenhuma eleição deveria valer uma família dividida.
Nenhuma bandeira partidária deveria ser maior do que o respeito pelo próximo.
E existe ainda uma realidade que frequentemente esquecemos: as eleições terminam.
Depois que as urnas são fechadas, continuaremos encontrando nossos vizinhos na rua. Continuaremos trabalhando, levando nossos filhos à escola, frequentando os mesmos mercados, igrejas, praças e bairros.
Continuaremos pertencendo à mesma cidade.
Defender ideias sem perder a humanidade
Também precisamos tomar cuidado para não confundir pacificação com omissão.
A política precisa de fiscalização. Quem ocupa um cargo público deve ser cobrado. Erros precisam ser apontados, denúncias precisam ser investigadas e o dinheiro público precisa ser acompanhado.
Mas existe uma enorme diferença entre fiscalizar e odiar.
É possível fazer oposição sem desejar destruir uma pessoa.
É possível apoiar alguém sem considerar todos os demais inimigos.
É possível discordar com firmeza e, mesmo assim, manter o respeito.
Talvez essa seja uma das maiores demonstrações de maturidade que podemos oferecer neste período eleitoral.
Alguém precisa interromper o ciclo
Quando uma discussão começa, normalmente esperamos que o outro recue primeiro.
Mas alguém precisa ser o primeiro a parar.
Alguém precisa decidir não devolver a ofensa.
Alguém precisa escolher baixar o tom.
Alguém precisa estender a mão.
Talvez, nos dias de hoje, dar a outra face também seja ter coragem de não devolver na mesma moeda.
Não precisamos pensar igual para caminharmos pela mesma cidade.
Quando a eleição terminar, vencedores e derrotados continuarão sendo cidadãos, vizinhos, amigos e familiares.
Por isso, antes de defender qualquer político, talvez devêssemos defender algo ainda maior:
o direito de cada pessoa pensar diferente sem deixar de ser respeitada.
Políticos passam. Mandatos terminam. Eleições acabam.
Mas as palavras que dizemos, as amizades que destruímos e as feridas que provocamos podem permanecer por muito mais tempo.
Que nesta eleição possamos defender nossas escolhas sem perder aquilo que nenhuma disputa política deveria conseguir tirar de nós:
a nossa humanidade.
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