Em uma democracia, costumamos olhar para as eleições perguntando quem ganhou, quem perdeu, quantos votos recebeu cada candidato e qual partido saiu fortalecido das urnas.
Mas existe um número que talvez mereça tanta atenção quanto o resultado dos candidatos: a quantidade de pessoas que simplesmente não foi votar.
Em Jundiaí, esse contingente vem crescendo e alcançou uma marca histórica nas eleições municipais de 2024.
No segundo turno daquele ano, 102.679 eleitores deixaram de comparecer às urnas, o equivalente a 30,52% dos 336.406 eleitores aptos. Foi o maior percentual de abstenção já registrado na cidade.
Em outras palavras, quase um em cada três eleitores de Jundiaí ficou em casa.
Um crescimento que vem de longe
O fenômeno não começou em 2024.
Quando observamos eleições municipais anteriores, percebemos uma mudança significativa no comportamento do eleitor jundiaiense.
Em 2004, Jundiaí possuía 241.007 eleitores e 29.220 não compareceram às urnas no primeiro turno, uma abstenção de 12,12%.
Doze anos depois, em 2016, a abstenção no primeiro turno já havia alcançado 16,96%, com 49.232 ausentes.
Em 2020, ano marcado pela pandemia de Covid-19, ocorreu um salto: 86.360 eleitores não votaram, correspondendo a 27,43% do eleitorado.
Era razoável imaginar que parte daquele aumento estivesse relacionada às circunstâncias excepcionais da pandemia.
Mas quatro anos depois, sem aquele contexto sanitário, a ausência continuou elevada.
No primeiro turno de 2024, 91.486 jundiaienses não compareceram, ou 27,20% do eleitorado. No segundo turno, o número aumentou para 102.679 pessoas e 30,52%.
A comparação histórica chama atenção:
2004: 12,12%
2016: 16,96%
2020: 27,43%
2024, 1º turno: 27,20%
2024, 2º turno: 30,52%
Em vinte anos, portanto, o percentual registrado no segundo turno de 2024 ficou em mais que o dobro daquele observado no primeiro turno de 2004.
O que está acontecendo com o eleitor?
Não existe uma única explicação.
Problemas de saúde, viagens, dificuldades de locomoção, mudança de endereço, compromissos pessoais e inúmeras outras circunstâncias podem fazer uma pessoa deixar de votar.
Por isso, seria precipitado afirmar que os mais de 100 mil eleitores ausentes de Jundiaí em 2024 estavam protestando contra a política.
Mas o crescimento da abstenção permite uma pergunta importante: quantos desses eleitores simplesmente deixaram de acreditar que seu voto poderia fazer alguma diferença?
Essa discussão ganha força quando observamos o cenário nacional.
Pesquisa conduzida pelo cientista político Jairo Pimentel, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), ouviu 1.500 pessoas e constatou que 41% apontaram a “decepção” como sentimento predominante na hora de votar — nove pontos percentuais acima do registrado vinte anos antes.
Outro levantamento divulgado pela própria FESPSP em 2026 identificou crescimento da rejeição, da indiferença e do desalento em relação à política. Segundo o estudo, 69% dos brasileiros não se enquadram na chamada polarização afetiva estrita. Para os pesquisadores, estar fora dessa polarização não significa necessariamente estar no centro: parte desse eleitorado pode simplesmente estar distante, frustrada ou desconfiada da política.
Talvez o maior adversário seja a indiferença
Durante períodos eleitorais, muito se fala sobre esquerda e direita, situação e oposição, conservadores e progressistas.
Candidatos gastam energia tentando conquistar o eleitor do adversário.
Mas talvez exista outro eleitor que mereça atenção: aquele que não quer mais saber da disputa.
É o cidadão que acompanha menos a política, não se identifica com os candidatos ou simplesmente conclui que nenhum deles merece seu voto.
E os números de Jundiaí mostram por que esse grupo não pode ser ignorado.
No segundo turno de 2024, os 102.679 eleitores ausentes formariam, simbolicamente, um contingente maior que os 87.832 votos recebidos pelo candidato que terminou a eleição em segundo lugar.
Isso não significa que os ausentes formem um bloco político ou que votariam no mesmo candidato. Muito menos que o resultado da eleição seria diferente caso todos comparecessem.
A comparação serve para mostrar apenas a dimensão da ausência.
O desafio de 2026
Às vésperas de mais uma eleição, talvez uma das perguntas mais importantes não seja apenas “em quem o eleitor vai votar?”
Talvez seja:
“O eleitor vai querer votar?”
Reconquistar quem perdeu o interesse pela política pode ser um desafio tão importante quanto convencer quem já escolheu um lado.
E essa responsabilidade não pertence somente a um partido, candidato ou corrente ideológica.
Pertence à política como um todo.
Quando promessas não se transformam em resultados, quando o debate público se resume a ataques pessoais e quando a polarização transforma adversários em inimigos, uma parcela da população pode não procurar uma terceira opção.
Pode simplesmente escolher não escolher.
Os números de Jundiaí não permitem afirmar o motivo individual de cada ausência. Mas deixam um alerta difícil de ignorar.
Em 2004, pouco mais de 12% dos eleitores ficaram fora das urnas no primeiro turno.
Vinte anos depois, no segundo turno de 2024, foram mais de 30%.
Mais de 100 mil jundiaienses não participaram da escolha final para prefeito.
Independentemente de ideologia ou preferência partidária, existe aí uma mensagem que merece ser compreendida.
Porque uma democracia não depende apenas de quem vence uma eleição.
Ela também depende de quantas pessoas ainda acreditam que vale a pena participar dela.
Comentários: