Dinheiro é importante em uma campanha eleitoral. Permite contratar equipes, produzir materiais, investir nas redes sociais, percorrer cidades, mobilizar apoiadores e tornar um candidato conhecido.
Mas será que quem gasta mais necessariamente vence?
Uma comparação entre eleições realizadas de 2018 a 2024 mostra que a resposta é não.
Existem casos em que candidatos com estruturas milionárias foram superados por adversários que gastaram muito menos. Por outro lado, também existem eleições em que uma grande estrutura financeira caminhou ao lado de uma candidatura já eleitoralmente muito forte.
Os números ajudam a entender essa diferença.
2018 — Daciolo gastou R$ 808 e terminou à frente de Meirelles
Um dos casos mais impressionantes aconteceu na eleição presidencial de 2018.
Henrique Meirelles (MDB), ex-ministro da Fazenda, declarou aproximadamente R$ 53,2 milhões em gastos de campanha e recebeu 1.288.948 votos.
Isso representa aproximadamente R$ 41,27 em despesas para cada voto conquistado.
Cabo Daciolo (Patriota) viveu uma realidade completamente diferente.
Sua campanha declarou apenas R$ 808,92 em despesas e, mesmo assim, conquistou 1.348.323 votos.
Ou seja: Daciolo gastou aproximadamente R$ 0,0006 por voto — muito menos de um centavo — e ainda terminou à frente de Meirelles. Os valores divulgados à época tinham como fonte as prestações eleitorais apresentadas ao TSE.
O caso talvez seja o exemplo mais extremo de que uma enorme estrutura financeira não necessariamente se transforma em votos.
2022 — Fred gastou mais; Kim recebeu quase quatro vezes mais votos
Quatro anos depois, encontramos outro exemplo, desta vez muito mais próximo de Jundiaí.
Na eleição de 2022 para deputado federal por São Paulo, Fred Machado (PSDB) declarou R$ 2.930.778 em despesas de campanha.
Recebeu 79.041 votos e ficou como suplente.
A relação entre despesas e votação foi de aproximadamente R$ 37,08 por voto.
Na mesma eleição e disputando exatamente o mesmo cargo, Kim Kataguiri (União Brasil) declarou R$ 1.623.079,14 em despesas.
Kim recebeu 295.460 votos e foi eleito deputado federal. Sua relação entre despesas e votos ficou em aproximadamente R$ 5,49 por eleitor conquistado.
A comparação chama atenção.
Fred gastou cerca de R$ 1,3 milhão a mais que Kim.
Mesmo assim, Kim recebeu 216.419 votos a mais.
Em outras palavras, enquanto a campanha de Fred custou aproximadamente 81% mais, Kim conquistou cerca de 3,7 vezes a votação de Fred.
O dinheiro estava presente. O que não ocorreu foi a mesma capacidade de transformar recursos financeiros em votos.
2024 — Parimoschi gastou R$ 4,4 milhões, mas Martinelli venceu
Jundiaí oferece outro exemplo ainda mais recente.
Na eleição municipal de 2024, José Antonio Parimoschi (PL) declarou aproximadamente R$ 4,405 milhões em despesas de campanha.
Gustavo Martinelli (União Brasil), por sua vez, declarou aproximadamente R$ 2,893 milhões.
A diferença ficou em aproximadamente R$ 1,51 milhão.
Parimoschi tinha a campanha mais cara entre os dois e chegou ao segundo turno depois de terminar a primeira etapa da eleição na liderança.
Mas a vantagem financeira não garantiu a Prefeitura.
Martinelli virou a eleição no segundo turno e foi eleito prefeito de Jundiaí.
Mais uma vez, a campanha que declarou maior volume de despesas não foi a vencedora.
Mas 2020 mostra o outro lado dessa história
Seria simplista, porém, concluir que dinheiro não tem importância eleitoral.
Tem — e muita.
A própria história recente de Jundiaí ajuda a mostrar isso.
Em 2020, Luiz Fernando Machado (PSDB) disputava a reeleição para prefeito em condições bastante diferentes.
Era o prefeito em exercício, possuía alto grau de conhecimento entre os eleitores e enfrentava uma eleição extremamente pulverizada, com diversos adversários.
Luiz Fernando declarou R$ 751.439,46 em despesas de campanha.
Naquela eleição, nenhum adversário conseguiu se aproximar eleitoralmente do prefeito.
Luiz Fernando conquistou 134.793 votos e 69,64% dos votos válidos, garantindo a reeleição ainda no primeiro turno.
Pedro Bigardi, ex-prefeito e segundo colocado, recebeu apenas 11.026 votos, ou 5,70%.
A diferença foi gigantesca.
O cenário de 2020, portanto, ajuda a mostrar uma característica importante do dinheiro na política.
Quando uma candidatura já possui força eleitoral, conhecimento público, estrutura política e enfrenta adversários pouco competitivos ou uma oposição pulverizada, uma estrutura financeira superior pode funcionar como mais um elemento de vantagem.
Mas isso é muito diferente de acreditar que dinheiro, sozinho, cria uma candidatura competitiva.
O dinheiro potencializa. Não necessariamente cria votos.
É justamente aí que os quatro exemplos começam a contar uma mesma história.
Em 2018, Meirelles tinha muito mais dinheiro que Daciolo e terminou atrás dele.
Em 2022, Fred Machado gastou aproximadamente R$ 1,3 milhão a mais que Kim Kataguiri, mas Kim recebeu quase quatro vezes mais votos e conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Em 2024, Parimoschi gastou aproximadamente R$ 1,5 milhão a mais que Martinelli, mas perdeu a Prefeitura de Jundiaí.
Já em 2020, Luiz Fernando Machado reuniu duas condições simultaneamente: uma candidatura extremamente competitiva e uma estrutura financeira forte diante de adversários que ficaram muito distantes nas urnas.
Existe, portanto, uma diferença importante.
Dinheiro pode potencializar uma candidatura que já possui força eleitoral. Mas gastar milhões não significa necessariamente conseguir transformar milhões em votos.
Campanhas são decididas também por fatores difíceis de medir em uma prestação de contas: identificação com o eleitor, rejeição, trajetória política, comunicação, presença nas ruas, redes sociais, alianças, momento político e capacidade de mobilização.
Os dados financeiros ajudam a medir o tamanho de uma campanha.
As urnas medem outra coisa: sua capacidade de convencer o eleitor.
E os exemplos de 2018, 2022 e 2024 mostram que essas duas medidas nem sempre caminham juntas.
No final, dinheiro ajuda a levar uma candidatura até o eleitor. Convencê-lo a votar continua sendo outra história.
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