Durante aproximadamente três décadas, milhares de jundiaienses se acostumaram a uma cena típica das manhãs de domingo: carros alinhados, placas de “vende-se”, famílias caminhando entre os veículos e compradores negociando diretamente com seus proprietários.
Era o Feirão do Automóvel de Jundiaí, criado por Reinaldo Prata a partir de uma ideia que ele conheceu em São Paulo e decidiu trazer para a cidade.
Muito antes de Marketplace, aplicativos e anúncios digitais transformarem a maneira de vender um automóvel, o Feirão funcionava quase como um grande classificado presencial.
Não era um feirão de concessionárias. A essência estava justamente na negociação direta: o proprietário levava seu carro, encontrava o comprador e negociava pessoalmente.
E funcionou por décadas.
A inspiração veio do Anhembi
Em um vídeo publicitário publicado na página do Feirão em 20 de janeiro de 2017, Reinaldo contou como tudo começou.
“Há 25 anos atrás eu negociava carro, né? E frequentava muito o Anhembi, em São Paulo. E a ideia foi trazer um evento desse em Jundiaí. E é onde deu certo, desde o primeiro domingo e estamos aí até hoje”, afirmou na ocasião.
O relato é importante para estabelecer a origem da tradição. Se Reinaldo já falava em aproximadamente 25 anos de atividade em 2017, o início do Feirão remonta ao começo da década de 1990.
A inspiração era justamente a tradicional feira paulistana que atualmente leva o nome de Feirão AutoShow.
Criado em 1972, o AutoShow começou na Praça Charles Miller e posteriormente se estabeleceu no Anhembi. Hoje sua própria organização contabiliza mais de cinco décadas de história, milhões de veículos anunciados e milhares de domingos de funcionamento.
Cinco endereços e uma mesma tradição
Ao longo de sua trajetória, o Feirão de Jundiaí não permaneceu no mesmo lugar.
A atividade passou por diferentes pontos da cidade até encontrar na Avenida Prefeito Luiz Latorre seu endereço mais conhecido.
Entre os locais utilizados ao longo da história estão:
Rua Lacerda Franco, 88; Avenida Quatorze de Dezembro, 475; Rua do Rosário, 21, no Centro; Avenida Prefeito Luiz Latorre, 4.469; e, por último, Avenida Prefeito Luiz Latorre, 5.300, no estacionamento da Faculdade Anhanguera.
Há documentação oficial que comprova a dimensão que o evento havia alcançado na Luiz Latorre.
Em 2013, parecer publicado pela Prefeitura de Jundiaí identifica formalmente Reinaldo Prata como responsável pelo Feirão do Automóvel de Jundiaí, realizado todos os domingos, das 7h às 13h, na Avenida Prefeito Luiz Latorre, 4.469.
O terreno possuía 7.655,75 metros quadrados, com espaços demarcados para os veículos e circulação. O próprio documento municipal define a finalidade como exposição para compra, venda ou troca de veículos pelos proprietários ou responsáveis.

Era, portanto, exatamente o modelo que marcou sua história: aproximar quem queria vender de quem queria comprar.
Negociação olho no olho
A reportagem publicada em vídeo em 2017 ajuda a mostrar por que o modelo resistiu mesmo com o avanço da internet.
O Feirão não vendia o carro. A negociação ficava por conta das duas partes.
A administração, entretanto, prestava assistência para consultas de documentação, multas e eventuais restrições e auxiliava na formalização inicial do negócio.
Um dos entrevistados daquele vídeo, José, dizia trabalhar havia muitos anos com automóveis sem possuir loja física. Para ele, o Feirão oferecia justamente a oportunidade de encontrar compradores e vendedores em um único lugar.
Outro participante, Thiago, apresentou uma explicação que continua atual mesmo na era dos classificados digitais: estava procurando um carro pela internet, mas queria vê-lo pessoalmente antes de comprar.
Era esse encontro físico que diferenciava o Feirão.
Havia ainda histórias que dificilmente caberiam em um anúncio de internet.
Naquela reportagem, um proprietário chamado Mairos apareceu tentando vender um Ford Del Rey 1991 que estava havia anos com sua família. Recém-casado e agora com uma garagem menor, precisava se desfazer do automóvel.
“Infelizmente eu vou ter que desligar dele. Mas o coração tá ficando junto ali”, contou.
O Feirão também era isso: carros carregados de histórias mudando de mãos.
Então veio a pandemia
Depois de atravessar mudanças econômicas, transformações no mercado automobilístico e até a revolução provocada pela internet, foi a pandemia de Covid-19 que interrompeu a tradição.
Segundo uma fonte ouvida pela reportagem, as restrições impostas durante a pandemia impediram a continuidade do evento. Ela afirma que, mesmo quando outros feirões começaram a retomar suas atividades com protocolos sanitários, Reinaldo não conseguiu autorização em Jundiaí para reabrir o espaço.
Essa afirmação sobre a ausência de autorização merece ser confrontada com a Prefeitura de Jundiaí para que o município possa explicar quais regras estavam vigentes naquele período.
O fato é que a espera teve consequências.
Mantendo um terreno alugado sem conseguir realizar o evento, Reinaldo acabou entregando o imóvel.
A longa passagem do Feirão pela Luiz Latorre chegava ao fim.
“Estamos de volta”
Reinaldo ainda tentou recomeçar.
Em 14 de agosto de 2022, anunciou nas redes sociais a retomada do Feirão, agora no estacionamento da Faculdade Anhanguera, também na Luiz Latorre.
“Estamos de Volta!!!!!!! Um lugar mais amplo, envolvido com a natureza, sanitários amplos, praça de alimentação, enfim um espaço para que você possa efetuar grandes negociações. Venha nos prestigiar”, dizia a publicação.
Era a tentativa de ressuscitar uma tradição que havia sido interrompida.
Mas não vingou.
Participantes reclamavam do preço cobrado para colocar os veículos à venda. Reinaldo, por outro lado, argumentava que o custo elevado do aluguel do novo espaço impedia a cobrança de valores menores.
A conta deixou de fechar.
E, dessa vez, o Feirão não encontrou outro endereço.
Em outras cidades, a tradição sobreviveu
O curioso é que a internet não matou esse tipo de comércio.
Basta olhar para outras cidades.
Em Indaiatuba, a própria Prefeitura mantém historicamente espaço público utilizado aos domingos para a feira de carros usados. Em 2018, durante obras no Parque Ecológico, o município informou inclusive que havia pavimentado o espaço e demarcado as vagas utilizadas pela feira para melhorar sua organização.
Em São Paulo, a tradição que inspirou Reinaldo também atravessou a pandemia.
O AutoShow deixou o Anhembi e passou cinco anos no Expo Center Norte. Em abril de 2026, retornou ao Distrito Anhembi, principalmente ao Sambódromo. Continua funcionando aos domingos e mantendo a negociação direta entre compradores e vendedores. A organização informa que atualmente cerca de 1.200 veículos e 3 mil visitantes passam pelo evento a cada domingo em São Paulo.
E há um exemplo ainda mais distante.
Em Belo Horizonte, o tradicional Feirão de Veículos do Mineirão também continua acontecendo aos domingos. O próprio Mineirão informa que a feira, que fez parte da vida dos mineiros por quase 40 anos, voltou a ocupar o complexo, com aproximadamente 500 vagas disponíveis para veículos.
São exemplos que mostram que, mesmo depois de sites, aplicativos e redes sociais mudarem completamente o mercado de usados, ainda existe espaço para a velha negociação presencial.
Jundiaienses foram procurar outros feirões
Com o fim do Feirão de Jundiaí, parte daquele público não abandonou o modelo.
Antigos participantes relatam que passaram a procurar alternativas, principalmente a feira de Indaiatuba e o AutoShow de São Paulo.
Outros simplesmente permaneceram na Luiz Latorre.
E talvez esteja aí a imagem mais simbólica dessa história.
O Feirão acabou. Os carros ficaram
Quem passa pela Avenida Luiz Latorre aos domingos ainda pode encontrar veículos particulares estacionados ao longo da via, nas proximidades de onde funcionava o antigo Feirão, com proprietários tentando encontrar compradores.
Não existe mais a estrutura que concentrava todos eles.
O terreno que durante anos recebeu carros populares, antigos, seminovos e veículos das mais variadas faixas de preço deu lugar a outro empreendimento.
Mas alguns vendedores continuam aparecendo na avenida.
É como se uma pequena parte do Feirão se recusasse a desaparecer.
Entre antigos participantes existe hoje o desejo de que Jundiaí tenha um espaço público destinado à negociação de veículos entre particulares, em modelo semelhante ao encontrado em Indaiatuba.
A proposta ganha significado quando observamos o que aconteceu em outras cidades.
São Paulo preservou seu AutoShow. Belo Horizonte mantém a tradição no Mineirão. Indaiatuba continua reservando espaço para sua feira.
Jundiaí, não.
A cidade que durante aproximadamente 30 anos teve aos domingos sua própria “feira livre do automóvel” viu a pandemia interromper uma tradição que nunca conseguiu se restabelecer.
Talvez por isso os carros estacionados na Luiz Latorre aos domingos representem mais do que pessoas tentando vender seus veículos.
São os últimos vestígios de uma tradição que começou no início dos anos 1990, atravessou cinco endereços, resistiu à chegada da internet e marcou os domingos de uma geração de jundiaienses.
Uma tradição interrompida — mas, aparentemente, ainda não esquecida.
Comentários: