A inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no mercado de trabalho começa a ganhar um novo caminho em Jundiaí. A adesão do município ao Polo de Empregabilidade Inclusiva (PEI) e ao Centro TEA Paulista, anunciada nesta semana, abre a possibilidade de ampliar a preparação de pessoas neurodivergentes para o mercado e aproximá-las das empresas que precisam contratar profissionais com deficiência.
A iniciativa chega em um momento em que a discussão sobre inclusão precisa avançar para além da existência das vagas.
A Lei nº 12.764/2012, conhecida como Lei Berenice Piana, estabelece que a pessoa com Transtorno do Espectro Autista é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. A mesma legislação coloca entre suas diretrizes o acesso à educação, ao ensino profissionalizante e ao mercado de trabalho.
Na prática, isso significa que trabalhadores com TEA podem ocupar vagas destinadas às pessoas com deficiência nas empresas sujeitas à chamada Lei de Cotas.
A Lei nº 8.213/1991 determina que empresas com 100 ou mais empregados reservem entre 2% e 5% de seus cargos para pessoas com deficiência ou beneficiários reabilitados, de acordo com o número total de funcionários.
Jundiaí cria novo caminho para a capacitação
Na última quinta-feira, 27 de agosto, a Prefeitura de Jundiaí formalizou a adesão a três programas do Governo do Estado: Todas In Rede, Centro TEA Paulista e Polo de Empregabilidade Inclusiva.
Entre eles, o PEI tem relação direta com a preparação para o trabalho.
Segundo a Prefeitura, o programa utiliza uma metodologia personalizada que procura identificar as habilidades e competências de cada candidato. Além da orientação profissional e de entrevistas individuais, estão previstos cursos gratuitos e acompanhamento antes, durante e depois da contratação.
Outro ponto importante é que o trabalho não fica restrito ao candidato.
O programa também oferece consultoria e suporte aos departamentos de Recursos Humanos das empresas para adaptação e acessibilidade dos postos de trabalho.
Essa abordagem pode ser especialmente importante para profissionais autistas. Em muitos casos, a inclusão depende não apenas da qualificação técnica do trabalhador, mas também da compreensão de suas características individuais e da preparação adequada do ambiente profissional.
Jundiaí já possui experiência com empregabilidade PcD
A cidade já desenvolve ações destinadas à inserção de pessoas com deficiência no mercado.
No primeiro trimestre de 2025, foram abertas 451 vagas para PcDs em Jundiaí, resultando em 195 contratações. Segundo a Prefeitura, naquele momento o município aparecia como a oitava cidade do Estado de São Paulo com maior número de contratações de pessoas com deficiência.
Em fevereiro deste ano, outra iniciativa reuniu a Prefeitura e a Foxconn em um processo seletivo exclusivo para PcDs. Mais de 20 vagas afirmativas foram disponibilizadas e aproximadamente 30 candidatos participaram das entrevistas.
Na ocasião, o Portal Jundiaí Empreendedora informava possuir 68 vagas exclusivas para pessoas com deficiência.
A vaga existe. Mas quem prepara o trabalhador?
É justamente nesse ponto que surge uma questão importante.
A Lei de Cotas cria oportunidades e obrigações para as empresas. A legislação também reconhece os direitos das pessoas autistas. Entretanto, para que a inclusão aconteça de verdade, é necessário construir uma ponte entre o profissional e a vaga disponível.
Capacitação profissional, identificação das habilidades individuais, orientação para processos seletivos e acompanhamento depois da contratação podem fazer diferença para que uma vaga destinada a PcD deixe de ser apenas um número e se transforme em oportunidade profissional.
A chegada do Polo de Empregabilidade Inclusiva representa um avanço nesse sentido.
Ainda existe, entretanto, espaço para Jundiaí avançar em uma questão mais específica: a criação ou ampliação de programas de formação profissional direcionados aos adultos com TEA e outros neurodivergentes que desejam ingressar no mercado de trabalho por meio das oportunidades destinadas às pessoas com deficiência.
O município também prepara a abertura do Centro Integrado Girassóis, direcionado principalmente ao atendimento de crianças neurodivergentes. O equipamento terá capacidade estimada para cerca de mil atendimentos mensais e também deverá atuar na capacitação de profissionais e na produção de informações para subsidiar políticas públicas.
Enquanto a rede de atendimento às crianças avança, outra discussão precisa caminhar paralelamente: o que acontece quando essas crianças se tornam adultas?
Inclusão também significa autonomia.
Preparar adolescentes e adultos neurodivergentes para uma profissão, identificar suas potencialidades e aproximá-los das empresas pode representar mais do que o cumprimento de uma cota prevista em lei.
Pode significar renda, independência, participação social e a oportunidade de construir o próprio futuro.
O novo Polo de Empregabilidade Inclusiva pode ser um importante passo nessa direção. O próximo desafio será fazer com que essa política chegue efetivamente às pessoas com TEA de Jundiaí e transforme capacitação em contratação.
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